Saudações Supremos e Supremas, Supremacia Rock Entrevista Headspawn, Power Trio nordestino de Groove Metal.

Perguntas:
1-Como o trio desenvolve o processo criativo para compor músicas que abordam temas tão profundos e contemporâneos, como esquizofrenia e degeneração social? Há alguma inspiração específica por trás das letras de “Pretty Ugly People”?
Alf: A inspiração é a realidade, nosso cotidiano, as pessoas que encontramos na rua. As músicas foram feitas num período de uma perturbadora ascensão global fascista, isso mexe com as pessoas, mexeu conosco, transcrevemos esse mundo real para dentro de nossa arte.
2-Qual foi a experiência de trabalhar com o produtor Victor Hugo Targino e de que maneira sua abordagem ajudou a moldar o som robusto e vibrante do EP? Há algum aspecto do processo de produção que você gostaria de destacar?
Alf: Victor Hugo é um produtor excepcional, mas o fato de nós sabermos exatamente o que queríamos fazer tornou tudo muito mais fácil. Nós já conhecíamos o trabalho dele, sempre tivemos admiração e não pensamos duas vezes quando surgiu a possiblidade de fazermos algo juntos.
Quando a banda estava num estágio embrionário, vamos dizer assim, nos já havíamos decidido quais timbres gostaríamos de ter, com quais texturasgostaríamos de trabalhar e já idealizamos o tipo de som tínhamos condições de fazer.
Sobre o processo de gravação, a gente não tinha grana e então usamos um estúdio caseiro que fica nos fundos de uma cervejaria local, tudo gentilmente cedido, as coisas estavam bem complicadas por causa das medidas sanitárias contra a COVID-19 mas acho que, ainda sim, conseguimos fazer um bom trabalho.
3-Como vocês veem a evolução do Rock/Metal no nordeste brasileiro e qual é o papel da HEADSPAWN nesse contexto? O que esperam trazer de novo para a cena musical regional e nacional com sua sonoridade?
Alf: Acho que temos um som muito identitário, não temos qualquer tipo de preocupação em emular ou reproduzir tipos musicais, todos os elementos que estão presentes em nossas músicas chegaram ali com toda a naturalidade, inclusive os elementos da música nordestina.
Entendo que nossa contribuição não é pétrea, sempre estaremos apresentando algo diferente, num formato diferente, sendo essa a nossa principal característica.
4-De que maneira a ausência de um público físico durante a gravação de “Pretty Ugly People Live” influenciou não apenas a performance musical, mas também a conexão emocional da banda com o material apresentado, e como essa experiência de performance intimista moldou a sua abordagem na criação de uma identidade artística mais autêntica e engajada para o futuro?
Alf: Nós três já tivemos algumas outras bandas antes de fazermos Headspawn, sabemos da importância do público para performar de forma satisfatória e estávamos diante de uma situação instransponível, a quarentena pandêmica.
Vivemos numa era de artistas digitais, bandas que só existem na internet e tínhamos essa vontade de mostrar para as pessoas que isso não era o nosso caso.
É bem verdade que isso é muito estranho, você tá ali com um som de show, iluminação de palco e tocando para absolutamente ninguém além da equipe de filmagem, mas isso não é tão diferente do que o Showlivre faz, né?
As pessoas entenderam o recado e compareceram aos nossos shows.
5-Como “Satan Goss” articula a interseção entre a mitologia do vilão de Jaspion e a psicologia do medo, e de que forma a banda utiliza elementos simbólicos e sonoros para desdobrar essa alegoria, permitindo uma análise crítica do impacto que os traumas inconscientes podem ter na formação da identidade e comportamento humano? Além disso, quais implicações essa narrativa tem em relação ao enfrentamento e à superação de nossos demônios internos na contemporaneidade?
Alf: Satan Goss abre nosso EP falando justamente do despertar das pessoas comuns dentro do projeto de poder fascista, infelizmente muitas pessoas foram cooptadas por meio de discurso de ódio, mentiras e desinformação. Para quem não conhece o universo Jaspion, Satan Goss era o grande vilão da série e uma das manobras mais repetidas nos episódios era quando ele soltava um raio de ódio em monstros adormecidos, os monstros despertavam enfurecidos sob o poder do vilão e tentavam destruir o mundo.
Bem, foi exatamente isso o que a extrema-direita fez com as pessoas comuns, por isso a metáfora.
6-Como “Worthless Piece Of Shit” utiliza a música como uma ferramenta de crítica social para expor a realidade da pobreza extrema no Brasil, e de que forma vocês esperam que essa faixa impacte a conscientização e a mobilização da sociedade em relação às consequências das decisões políticas e à falta de responsabilidade social durante a pandemia?
Alf: É uma música de protesto contra figuras de poder, como lideres religiosos, políticos e a mais nova praga, influenciadores digitais. Explicita um desejo de fazer justiça com as próprias mãos, ter uma oportunidade de vingança contra tais figuras, entra novamente naquela ideia de transcrever a realidade para dentro da arte e tentar lidar melhor com o sentimento de frustração por ter que conviver com injustiças, impunidade e a inacabável sensação de impotência.
7-De que maneira “Everybody Hates Somebody” e sua exploração dos conflitos sociais e emocionais podem ser entendidos como um espelho para a psique coletiva da sociedade contemporânea, e como vocês vislumbram que essa obra impacte a narrativa cultural ao confrontar as estruturas de opressão através da música?
Alf: A arte é uma oportunidade de registrar um posicionamento, uma opinião, nós vivemos num país extremamente racista, onde a mídia e o sistema fizeram as pessoas normalizar a opressão e a violência contra o povo. O discurso dos fascistas é claro e direto, eles estão o tempo todo dizendo que nos odeiam, nada mais justo do que dizermos a eles o quanto nós os odiamos de volta. “Meu cuspe está pronto pra bater na sua cara”, é uma das minhas frases favoritas assim como a indagação final da música “Por que Deus odeia todo mundo?”. Acho que nós simplesmente sentimos a incessante vontade de nos posicionar.
8- Como a recepção calorosa de músicos renomados e a descrição unânime de “Parasites” como uma obra diferenciada e tecnicamente impressionante podem influenciar a percepção do Metal Nordestino no cenário nacional, e quais estratégias o trio pretende adotar para maximizar o impacto dessa obra no mercado e na cultura musical brasileira?
Alf: Muita gente acha o Metal conservador, coxinha, fechado, etc. Eu vejo isso de uma forma diferente, acho que o Metal é liberdade, quando você consegue trazer coisas novas e diferentes, quando você cria uma abordagem que te permite ampliar sua comunicação, a galera do Metal vai te compreender.
Nós vivemos numa região onde o Metal é uma música difundida para minoria, temos público, mas não temos tantos espaços, tampouco incentivos. Não há sustentabilidade, tudo é difícil, então desde cedo a gente aprende que precisa fazer algo para furar a bolha, ter acesso a outras estruturas e assim fazer com que as pessoas conheçam Headspawn.
Fomos forjados sob tais circunstâncias, vamos sempre dar continuidade a missão de entrar em diferentes esferas do mercado musical para poder deixar um legado que tenha valor artístico relevante.

Obrigado pelo tempo cedido para essa entrevista, nós desejamos todo sucesso para vocês.
Conheça mais sobre a banda nos links abaixo:
Instagram:
https://www.instagram.com/headspawn_official/
YouTube:
https://www.youtube.com/@headspawnchannel
Entrevista feita por: Bruno Lacerda
Entrevistado: Headspawn

*Supremacia Rock, Portal De Mídia Underground*.